10 Novembro, 2009
09 Novembro, 2009
07 Novembro, 2009
so many feelings
O rádio do carro. O governo sombra a fechar - evocando o grande
António Sérgio - com uma música dos The Sound. I can't escape
myself. Há quanto tempo não ouvia esta música (esta frase precisava
de um ponto de exclamação, mas hoje não estou para sinais
que gritem demasiado). Esta música que eu não sabia perdurar ainda
tanto dentro de mim, tão gravada nos meus ossos. O ritmo nervoso
e contagiante, a melodia abrindo dores inomeáveis. O rádio no carro,
na manhã incerta, a caminho do hospital. Não sei o que o futuro me
reserva, mas sei que não posso escapar aos meus sentimentos.
António Sérgio - com uma música dos The Sound. I can't escape
myself. Há quanto tempo não ouvia esta música (esta frase precisava
de um ponto de exclamação, mas hoje não estou para sinais
que gritem demasiado). Esta música que eu não sabia perdurar ainda
tanto dentro de mim, tão gravada nos meus ossos. O ritmo nervoso
e contagiante, a melodia abrindo dores inomeáveis. O rádio no carro,
na manhã incerta, a caminho do hospital. Não sei o que o futuro me
reserva, mas sei que não posso escapar aos meus sentimentos.
05 Novembro, 2009
01 Novembro, 2009
31 Outubro, 2009
29 Outubro, 2009
portugal no seu melhor
"A primeira coisa que aprendi foi que isso do amor incondicional de
mãe não existe. Se soubesse a quantidade de mães que abandonam
os filhos por esse país fora...
Havia sempre muito mais cartas de filhos à procura de pais que de
pais à procura de filhos. E quando os pais eram encontrados muitas
vezes não mostravam alegria ou arrependimento ou culpa pelo que
tinham feito. Isso chocou-me muito. A outra coisa que aprendi foi
que há por aí muitos óbitos não registados, alguns casos de bigamia
e pessoas que têm no registo pais que não são os biológicos... sem
que tenha havido adopção."
(palavras de Lurdes Gândara, jornalista do antigo programa televisivo
da SIC "Ponto de Encontro", retiradas de um artigo de Sónia Morais
Santos para o jornal "i" do passado fim-de-semana)
mãe não existe. Se soubesse a quantidade de mães que abandonam
os filhos por esse país fora...
Havia sempre muito mais cartas de filhos à procura de pais que de
pais à procura de filhos. E quando os pais eram encontrados muitas
vezes não mostravam alegria ou arrependimento ou culpa pelo que
tinham feito. Isso chocou-me muito. A outra coisa que aprendi foi
que há por aí muitos óbitos não registados, alguns casos de bigamia
e pessoas que têm no registo pais que não são os biológicos... sem
que tenha havido adopção."
(palavras de Lurdes Gândara, jornalista do antigo programa televisivo
da SIC "Ponto de Encontro", retiradas de um artigo de Sónia Morais
Santos para o jornal "i" do passado fim-de-semana)
25 Outubro, 2009
20 Outubro, 2009
o inesgotável tema do nobel
Expresso — Foi hoje anunciado o vencedor do Prémio Nobel da
Literatura.
Philip Roth — Quem ganhou?
E. — Herta Müller.
P.R. — Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
E. — Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece
constantemente como um potencial vencedor...
P.R. — Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não
na Suécia. Isso é apenas falatório.
E. — Dá alguma importância ao prémio?
P.R. — No ano passado, foi atribuído a Harold Pinter, e ele é um
óptimo escritor [Na verdade, Pinter recebeu o Nobel em 2005].
Há dois anos, o prémio foi para Doris Lessing, que também é uma
escritora muito boa. Mas, no cômputo geral, o Nobel não vai para
grande escritores.
E. — Conhece o trabalho de José Saramago?
P.R. — Não, não conheço.
E. — Conhece algum escritor português?
P.R. — Não. Conheço a obra do brasileiro Machado de Assis. Não
leio muitos autores contemporâneos. Nos últimos anos, tenho relido
muitos escritores que li quando estava na casa dos 20 anos. Como,
por exemplo, o Hemingway...
[Rapidamente o tema do Nobel esgotou-se. Roth, que venceu todos
os prémios que há para vencer, à excepção do Nobel, não demonstrou
nenhuma expressão de desapontamento ou de tristeza face ao anúncio
da vitória de Herta Müller.]
(excerto da entrevista de João Luz a Philip Roth publicada no
Expresso de 17 de Outubro )
Literatura.
Philip Roth — Quem ganhou?
E. — Herta Müller.
P.R. — Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
E. — Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece
constantemente como um potencial vencedor...
P.R. — Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não
na Suécia. Isso é apenas falatório.
E. — Dá alguma importância ao prémio?
P.R. — No ano passado, foi atribuído a Harold Pinter, e ele é um
óptimo escritor [Na verdade, Pinter recebeu o Nobel em 2005].
Há dois anos, o prémio foi para Doris Lessing, que também é uma
escritora muito boa. Mas, no cômputo geral, o Nobel não vai para
grande escritores.
E. — Conhece o trabalho de José Saramago?
P.R. — Não, não conheço.
E. — Conhece algum escritor português?
P.R. — Não. Conheço a obra do brasileiro Machado de Assis. Não
leio muitos autores contemporâneos. Nos últimos anos, tenho relido
muitos escritores que li quando estava na casa dos 20 anos. Como,
por exemplo, o Hemingway...
[Rapidamente o tema do Nobel esgotou-se. Roth, que venceu todos
os prémios que há para vencer, à excepção do Nobel, não demonstrou
nenhuma expressão de desapontamento ou de tristeza face ao anúncio
da vitória de Herta Müller.]
(excerto da entrevista de João Luz a Philip Roth publicada no
Expresso de 17 de Outubro )
18 Outubro, 2009
14 Outubro, 2009
o homem é um grande faisão sobre a terra
" Windisch vai empurrando a bicicleta. Olha para a lua. O guarda-
-nocturno diz em voz baixa, mastigando: "O homem é um grande
faisão sobre a terra." Windisch levanta o saco e coloca-o na bicicleta.
" O homemm é forte, diz ele, "mais forte que as bestas."
O jornal tem uma ponta levantada. O vento parece uma mão a em-
purrar. O guarda-nocturno põe a faca sobre o banco. "Passei pelas
brasas", diz ele. Windisch curva-se sobre a bicicleta. Ergue a cabeça.
"Eu acordei-te". "Não foste tu", diz o guarda-nocturno, "a minha
mulher é que me acordou." Sacode as migalhas de pão do casaco.
"Já sabia que não conseguia dormir. A lua vai cheia. Sonhei com o
sapo seco. Sentia um cansaço de morte. E não conseguia ir dormir. O
sapo estava deitado na cama. Falei com a minha mulher. O sapo
olhava com os olhos da minha mulher. Tinha a trança da minha
mulher. Trazia a camisa de dormir dela vestida e enrodilhada até à
barriga. Eu disse-lhe, tapa-te que tens as coxas murchas. Eu disse
isso à minha mulher. O sapo tapou as coxas com a camisa de dormir.
Eu sentei-me na cadeira junto da cama. O sapo sorriu com a boca da
minha mulher. A cadeira chia, disse ele. A cadeira não estava a chiar.
O sapo pôs a trança da minha mulher sobre o ombro. A trança era tão
comprida como a camisa. Eu disse: o teu cabelo cresceu. O sapo er-
gueu a cabeça e gritou: Tu estás bêbado, não tarda que caias da ca-
deira abaixo."
Uma nuvem mancha a lua de vermelho. Windisch encosta-se à parede
da azenha. "O ser humano é estúpido", diz o guarda-nocturno, "e
está sempre pronto a perdoar." O cão come um pedaço do coirato. "A
ela, perdoei tudo", diz o guarda-nocturno. "Perdoei-lhe o padeiro.
Perdoei-lhe o comportamento na cidade." Passa as pontas dos dedos
pela lâmina da faca: "A aldeia em peso fez pouco de mim." Windisch
suspira. "Eu nem conseguia olhá-la nos olhos", diz o guarda-nocturno:
"Só uma coisa não consegui perdoar-lhe: é que tivesse morrido tão
depressa como se não tivesse ninguém. Isso é que não lhe perdoei."
"Sabe Deus" diz Windisch, "para que é que elas existem, as mulheres."
O guarda-nocturno encolhe os ombros: "Para nós é que não" diz ele.
"Nem para mim, nem para ti. Não sei para quem." O guarda-nocturno
faz uma festa ao cão. "E as filhas", diz Windisch, "sabe Deus, também
elas se tornam mulheres."
(excerto de "O homem é um grande faisão sobre a terra" de Herta Müller)
-nocturno diz em voz baixa, mastigando: "O homem é um grande
faisão sobre a terra." Windisch levanta o saco e coloca-o na bicicleta.
" O homemm é forte, diz ele, "mais forte que as bestas."
O jornal tem uma ponta levantada. O vento parece uma mão a em-
purrar. O guarda-nocturno põe a faca sobre o banco. "Passei pelas
brasas", diz ele. Windisch curva-se sobre a bicicleta. Ergue a cabeça.
"Eu acordei-te". "Não foste tu", diz o guarda-nocturno, "a minha
mulher é que me acordou." Sacode as migalhas de pão do casaco.
"Já sabia que não conseguia dormir. A lua vai cheia. Sonhei com o
sapo seco. Sentia um cansaço de morte. E não conseguia ir dormir. O
sapo estava deitado na cama. Falei com a minha mulher. O sapo
olhava com os olhos da minha mulher. Tinha a trança da minha
mulher. Trazia a camisa de dormir dela vestida e enrodilhada até à
barriga. Eu disse-lhe, tapa-te que tens as coxas murchas. Eu disse
isso à minha mulher. O sapo tapou as coxas com a camisa de dormir.
Eu sentei-me na cadeira junto da cama. O sapo sorriu com a boca da
minha mulher. A cadeira chia, disse ele. A cadeira não estava a chiar.
O sapo pôs a trança da minha mulher sobre o ombro. A trança era tão
comprida como a camisa. Eu disse: o teu cabelo cresceu. O sapo er-
gueu a cabeça e gritou: Tu estás bêbado, não tarda que caias da ca-
deira abaixo."
Uma nuvem mancha a lua de vermelho. Windisch encosta-se à parede
da azenha. "O ser humano é estúpido", diz o guarda-nocturno, "e
está sempre pronto a perdoar." O cão come um pedaço do coirato. "A
ela, perdoei tudo", diz o guarda-nocturno. "Perdoei-lhe o padeiro.
Perdoei-lhe o comportamento na cidade." Passa as pontas dos dedos
pela lâmina da faca: "A aldeia em peso fez pouco de mim." Windisch
suspira. "Eu nem conseguia olhá-la nos olhos", diz o guarda-nocturno:
"Só uma coisa não consegui perdoar-lhe: é que tivesse morrido tão
depressa como se não tivesse ninguém. Isso é que não lhe perdoei."
"Sabe Deus" diz Windisch, "para que é que elas existem, as mulheres."
O guarda-nocturno encolhe os ombros: "Para nós é que não" diz ele.
"Nem para mim, nem para ti. Não sei para quem." O guarda-nocturno
faz uma festa ao cão. "E as filhas", diz Windisch, "sabe Deus, também
elas se tornam mulheres."
(excerto de "O homem é um grande faisão sobre a terra" de Herta Müller)
13 Outubro, 2009
08 Outubro, 2009
o nobel é uma grande distinção sobre um homem
Não sei porque deixo, por vezes, palavras cravadas no corpo
dos livros. Talvez seja essa crescente necessidade de registar a
passagem do tempo. Uma espécie de substituição da esburacada
memória que parece esfumar-se sem apelo...
Ninguém parece conhecê-la mas eu sei que a li. Chego a casa,
procuro na estante. Demoro algum tempo, tinha a impressão que
a lombada não era tão estreita.
" O homem é um grande faisão sobre a terra".
19.4.93, o azul simples de um esferográfica. Primeira edição da
Cotovia. Modestos mil e quinhentos exemplares imprimidos em
Viseu. Creio tê-los visto, alguns deles, ao longo destes anos, ao
desbarato por toda a sorte de feiras do livro. Destino muito comum.
E um dia vem o Nobel para tirá-los do esquecimento, do recôndito
da mais esconsa prateleira, do pó pouco diáfano dos armazéns.
Tenho, portanto, o livro. Sou um dos felizes contemplados.
Relê-lo-ei. Deixo-vos um excerto.
"Quando Amalie tinha sete anos, Rudi atravessou com ela o
milheiral. Levou-a até ao fundo do quintal. "O milho é a flor-
esta", disse ele. Rudi foi com Amalie para o celeiro. Ele disse:
"O celeiro é o castelo."
No celeiro havia uma pipa vazia. Rudi e Amalie meteram-se
na pipa. "A pipa é a tua cama", disse Rudi. Pôs uma coroa de
bardanas secas no cabelo de Amalie. "Tu tens uma coroa de
espinhos", disse ele. "Estás enfeitiçada. Amo-te. Tens de so-
frer."
Rudi tinha o bolso do casaco cheio de cacos de vidro colorido.
Colocou os bocados de vidro na borda da pipa. Os cacos cin-
tilavam. Amalie sentou-se no fundo da pipa. Rudi ajoelhou-se
à sua frente. Levantou-lhe o vestido. "Bebo o teu leite", disse
Rudi. Chupou os mamilos de Amalie. Amalie fechou os olhos.
Rudi mordeu-lhe os pequenos bicos castanhos.
Os mamilos de Amalie incharam. Amalie chorou. Rudi foi para
o campo pelo fundo do quintal. Amalie correu para casa.
Os ouriços da bardana ficaram-lhe colados ao cabelo. Estavam
enrolados. A mulher de Windisch cortou com uma tesoura as
pontas de cabelo embaraçado. Lavou os mamilos de Amalie
com chá de macela. "Não podes voltar a brincar com ele", disse
ela. "O filho do peleiro é maluco. Por causa de tanto animal
empalhado não regula bem da cabeça."
Windisch abanava a cabeça. "Amalie ainda nos há-de enver-
gonhar", disse ele."
dos livros. Talvez seja essa crescente necessidade de registar a
passagem do tempo. Uma espécie de substituição da esburacada
memória que parece esfumar-se sem apelo...
Ninguém parece conhecê-la mas eu sei que a li. Chego a casa,
procuro na estante. Demoro algum tempo, tinha a impressão que
a lombada não era tão estreita.
" O homem é um grande faisão sobre a terra".
19.4.93, o azul simples de um esferográfica. Primeira edição da
Cotovia. Modestos mil e quinhentos exemplares imprimidos em
Viseu. Creio tê-los visto, alguns deles, ao longo destes anos, ao
desbarato por toda a sorte de feiras do livro. Destino muito comum.
E um dia vem o Nobel para tirá-los do esquecimento, do recôndito
da mais esconsa prateleira, do pó pouco diáfano dos armazéns.
Tenho, portanto, o livro. Sou um dos felizes contemplados.
Relê-lo-ei. Deixo-vos um excerto.
"Quando Amalie tinha sete anos, Rudi atravessou com ela o
milheiral. Levou-a até ao fundo do quintal. "O milho é a flor-
esta", disse ele. Rudi foi com Amalie para o celeiro. Ele disse:
"O celeiro é o castelo."
No celeiro havia uma pipa vazia. Rudi e Amalie meteram-se
na pipa. "A pipa é a tua cama", disse Rudi. Pôs uma coroa de
bardanas secas no cabelo de Amalie. "Tu tens uma coroa de
espinhos", disse ele. "Estás enfeitiçada. Amo-te. Tens de so-
frer."
Rudi tinha o bolso do casaco cheio de cacos de vidro colorido.
Colocou os bocados de vidro na borda da pipa. Os cacos cin-
tilavam. Amalie sentou-se no fundo da pipa. Rudi ajoelhou-se
à sua frente. Levantou-lhe o vestido. "Bebo o teu leite", disse
Rudi. Chupou os mamilos de Amalie. Amalie fechou os olhos.
Rudi mordeu-lhe os pequenos bicos castanhos.
Os mamilos de Amalie incharam. Amalie chorou. Rudi foi para
o campo pelo fundo do quintal. Amalie correu para casa.
Os ouriços da bardana ficaram-lhe colados ao cabelo. Estavam
enrolados. A mulher de Windisch cortou com uma tesoura as
pontas de cabelo embaraçado. Lavou os mamilos de Amalie
com chá de macela. "Não podes voltar a brincar com ele", disse
ela. "O filho do peleiro é maluco. Por causa de tanto animal
empalhado não regula bem da cabeça."
Windisch abanava a cabeça. "Amalie ainda nos há-de enver-
gonhar", disse ele."
04 Outubro, 2009
02 Outubro, 2009
27 Setembro, 2009
(a lembrar na) hora de votar
"(...) A honestidade dos empregados é a base de toda a
economia indiana.
O Grande Galinheiro Indiano. Terá a China alguma coisa
que se assemelhe? Duvido, Sr. Jiaobao. Se tivesse, não
iria precisar do Partido Comunista para fuzilar as pessoas
nem da polícia secreta para lhes invadir as casas a meio
da noite e as levar para a cadeia, como eu ouvi dizer que
aí fazem. Aqui, na Índia, não temos qualquer espécie de
ditadura. Nem polícia secreta tão-pouco.
Basta-nos o galinheiro.
Nunca na história da humanidade tão poucos deveram
tanto a tantos, Sr. Jiaobao. Neste país, um punhado de
indivíduos treinou os restantes 99,9 por cento — tão fortes,
talentosos e inteligentes como eles em todos os aspectos —
para uma existência condenada à servidão perpétua; uma
servidão tão forte que podemos entregar a chave da eman-
cipação nas mãos deste homem que ele no-la devolverá com
uma imprecação.
Terá de vir até nós e ver com os seus próprios olhos para
acreditar. Todos os dias, milhões de pessoas acordam de
madrugada, enfiam-se em autocarros imundos e apinhados
de gente, chegam às casa elegantes dos seus patrões, e lim-
pam-lhes o chão, lavam-lhes a louça, tratam-lhes do jardim,
alimentam-lhes os filhos, massajam-lhes os pés — tudo isto
a troco dum salário de miséria. Nunca haverei de invejar os
ricos da América ou da Inglaterra., Sr. Jiaobao: lá, eles não
têm criados. Nem sequer lhes passa pela cabeça o que é a
boa vida.
Ora, um homem dado à reflexão como o senhor primeiro-
-ministro não pode deixar de fazer duaa perguntas.
Porque motivo é que o Galinheiro funciona? Como é que
consegue aprisionar tantos milhões de homens e de mulhe-
res com tanta facilidade?"
(mais um excerto de "O Tigre Branco", de Aravind Adiga,
"Man Booker Prize" em 2008)
economia indiana.
O Grande Galinheiro Indiano. Terá a China alguma coisa
que se assemelhe? Duvido, Sr. Jiaobao. Se tivesse, não
iria precisar do Partido Comunista para fuzilar as pessoas
nem da polícia secreta para lhes invadir as casas a meio
da noite e as levar para a cadeia, como eu ouvi dizer que
aí fazem. Aqui, na Índia, não temos qualquer espécie de
ditadura. Nem polícia secreta tão-pouco.
Basta-nos o galinheiro.
Nunca na história da humanidade tão poucos deveram
tanto a tantos, Sr. Jiaobao. Neste país, um punhado de
indivíduos treinou os restantes 99,9 por cento — tão fortes,
talentosos e inteligentes como eles em todos os aspectos —
para uma existência condenada à servidão perpétua; uma
servidão tão forte que podemos entregar a chave da eman-
cipação nas mãos deste homem que ele no-la devolverá com
uma imprecação.
Terá de vir até nós e ver com os seus próprios olhos para
acreditar. Todos os dias, milhões de pessoas acordam de
madrugada, enfiam-se em autocarros imundos e apinhados
de gente, chegam às casa elegantes dos seus patrões, e lim-
pam-lhes o chão, lavam-lhes a louça, tratam-lhes do jardim,
alimentam-lhes os filhos, massajam-lhes os pés — tudo isto
a troco dum salário de miséria. Nunca haverei de invejar os
ricos da América ou da Inglaterra., Sr. Jiaobao: lá, eles não
têm criados. Nem sequer lhes passa pela cabeça o que é a
boa vida.
Ora, um homem dado à reflexão como o senhor primeiro-
-ministro não pode deixar de fazer duaa perguntas.
Porque motivo é que o Galinheiro funciona? Como é que
consegue aprisionar tantos milhões de homens e de mulhe-
res com tanta facilidade?"
(mais um excerto de "O Tigre Branco", de Aravind Adiga,
"Man Booker Prize" em 2008)
25 Setembro, 2009
23 Setembro, 2009
21 Setembro, 2009
a césar o que é de césar
"Um Homem Passa Com Um Pão Ao Ombro..."
de César Vallejo
Um homem passa com um pão ao ombro
— Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?
Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
— Com que desplante falar da psicanálise?
Outro entrou em meu peito com um pau na mão
— Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?
Um coxo passa dando o braço a um menino
— Vou, depois, ler André Breton?
Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
— Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?
Outro busca no lodo ossos e cascas
— Como escrever, depois, sobre o infinito?
Um pedreiro cai de um telhado, morre, já não almoça
— Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?
Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
— Falar, depois, da quarta dimensão?
Um banqueiro falsifica o seu balanço
— Com que cara chorar no teatro?
Um pária dorme com um pé às costas
— Falar, depois, a ninguém de Picasso?
Alguém vai num enterro a soluçar
— Como em seguida ingressar na Academia?
Alguém limpa uma espingarda na cozinha
— Com que desplante falar do mais além?
Alguém passa a contar pelos dedos
— Como falar do não-eu sem dar um grito?
5 Nov. 1937
19 Setembro, 2009
j de joana

© 2009
"A a Z - Entre Imagens e Palavras"
uma exposição de Joana Rêgo
na Galeria Municipal de Matosinhos,
a ver, admirar, rever, fruir, absorver até 18 de Outubro.
17 Setembro, 2009
um bárbaro na índia
"O indiano não é seduzido pela graciosidade dos animais. Oh, não!
Antes os olha de viés.
Não gosta de cães. Não há concentração nos cães. São seres de
primeiro impulso, vergonhosamente desprovidos de autodomínio.
E depois, que significam estes reincarnados todos? Se não tivessem
pecado, não seriam cães. Infectos criminosos, talvez tenham morto
um Brâmane (na Índia, cuidado: evitar ser cão ou viúva).
O hindu aprecia a meditação, a sabedoria. Sente-se de acordo com
a vaca e o elefante, que lá no foro íntimo mantêm a sua ideia e de
algum modo vivem retirados. O hindu gosta dos animais que não
dizem "obrigado" nem fazem demasiadas cabriolas.
Nos campos, não há pardais; há pavões, íbis, aves pernaltas, muitos
corvos e milhafres.
Tudo isso é sério.
Camelos e búfalos de água.
É inútil dizer que o búfalo da água é lento. Só pensa em espojar-se
na lama; o resto não lhe interessa. Atrelado, mesmo em Calcutá,
não irá depressa, oh! não, e passando de vez em quando pelos
dentes a língua fuliginosa, observará a cidade como um sítio onde
se sente perdido.
Quanto ao camelo, é bem superior ao cavalo, orientalmente fa-
lando; um cavalo a trote ou a galope tem sempre o ar de estar a
fazer desporto. Não corre, debate-se. O camelo, pelo contrário,
avança rapidamente com passada harmoniosa.
A propósito de vacas e elefantes, devo dizer uma coisa: não me
agradam os notários. As vacas e os elefantes, animais sem chama,
são notários"
Henri Michaux em "Um Bárbaro na Ásia" (depois de uma viagem pelo
continente asiático encetada em 1931).
Antes os olha de viés.
Não gosta de cães. Não há concentração nos cães. São seres de
primeiro impulso, vergonhosamente desprovidos de autodomínio.
E depois, que significam estes reincarnados todos? Se não tivessem
pecado, não seriam cães. Infectos criminosos, talvez tenham morto
um Brâmane (na Índia, cuidado: evitar ser cão ou viúva).
O hindu aprecia a meditação, a sabedoria. Sente-se de acordo com
a vaca e o elefante, que lá no foro íntimo mantêm a sua ideia e de
algum modo vivem retirados. O hindu gosta dos animais que não
dizem "obrigado" nem fazem demasiadas cabriolas.
Nos campos, não há pardais; há pavões, íbis, aves pernaltas, muitos
corvos e milhafres.
Tudo isso é sério.
Camelos e búfalos de água.
É inútil dizer que o búfalo da água é lento. Só pensa em espojar-se
na lama; o resto não lhe interessa. Atrelado, mesmo em Calcutá,
não irá depressa, oh! não, e passando de vez em quando pelos
dentes a língua fuliginosa, observará a cidade como um sítio onde
se sente perdido.
Quanto ao camelo, é bem superior ao cavalo, orientalmente fa-
lando; um cavalo a trote ou a galope tem sempre o ar de estar a
fazer desporto. Não corre, debate-se. O camelo, pelo contrário,
avança rapidamente com passada harmoniosa.
A propósito de vacas e elefantes, devo dizer uma coisa: não me
agradam os notários. As vacas e os elefantes, animais sem chama,
são notários"
Henri Michaux em "Um Bárbaro na Ásia" (depois de uma viagem pelo
continente asiático encetada em 1931).
15 Setembro, 2009
14 Setembro, 2009
09 Setembro, 2009
08 Setembro, 2009
voltando ao tigre branco
"Sabe o senhor, neste país, nos seus tempos áureos, quando era a
nação mais rica do mundo, era uma espécie de jardim zoológico. Um
jardim zoológico asseado, bem conservado e ordenado. Toda a gente
no seu lugar, toda a gente feliz. Ourives aqui. Vaqueiros ali. Proprie-
tários de terras acolá. O homem a quem chamavam Halwai fabricava
doces. O homem a quem chamavam vaqueiro tratava das vacas. Os
intocáveis limpavam os excrementos. Os senhores das terras eram
generosos para os seus servos. As mulheres cobriam a cabeça com
um véu e baixavam os olhos para o chão quando falavam com um
estranho.
E depois, graças a todos aqueles políticos de Nova Deli, a 15 de
Agosto de 1947 — no dia em que os ingleses partiram —, as gaiolas
foram abertas; e os animais atacaram-se e despedaçaram-se uns
aos outros, e a lei da selva substituiu a lei do jardim zoológico. Os
mais ferozes, os mais famintos, comeram os outros todos e ficaram
com umas grandes barrigas. A partir daí, era só isso que contava, o
tamanho da barriga. Não importava se era uma mulher, ou um mu-
çulmano, ou um intocável; qualquer pessoa que tivesse uma grande
barriga podia subir na vida. O pai do meu pai deve ter sido um ver-
dadeiro Halwai, um fabricante de doces, mas, quando herdou a loja,
um membro duma outra casta qualquer deve ter-lha roubado com
a ajuda da polícia. O meu pai não teve barriga para protestar. Foi
por isso que ele caiu tão fundo, até à lama, ao nível dum condutor
de riquexó. Foi por isso que eu fui impedido de cumprir o meu des-
tino de ser gordo, de pele clara e sorridente.
Resumindo — nos bons velhos tempos, havia mil castas e destinos
na Índia. Hoje em dia, existem apenas duas castas: Homens de
Barriga Grande e Homens de Barriga Pequena.
E apenas dois destinos: comer — ou ser comido."
(retirado de "O Tigre Branco" de Aravind Adiga)
nação mais rica do mundo, era uma espécie de jardim zoológico. Um
jardim zoológico asseado, bem conservado e ordenado. Toda a gente
no seu lugar, toda a gente feliz. Ourives aqui. Vaqueiros ali. Proprie-
tários de terras acolá. O homem a quem chamavam Halwai fabricava
doces. O homem a quem chamavam vaqueiro tratava das vacas. Os
intocáveis limpavam os excrementos. Os senhores das terras eram
generosos para os seus servos. As mulheres cobriam a cabeça com
um véu e baixavam os olhos para o chão quando falavam com um
estranho.
E depois, graças a todos aqueles políticos de Nova Deli, a 15 de
Agosto de 1947 — no dia em que os ingleses partiram —, as gaiolas
foram abertas; e os animais atacaram-se e despedaçaram-se uns
aos outros, e a lei da selva substituiu a lei do jardim zoológico. Os
mais ferozes, os mais famintos, comeram os outros todos e ficaram
com umas grandes barrigas. A partir daí, era só isso que contava, o
tamanho da barriga. Não importava se era uma mulher, ou um mu-
çulmano, ou um intocável; qualquer pessoa que tivesse uma grande
barriga podia subir na vida. O pai do meu pai deve ter sido um ver-
dadeiro Halwai, um fabricante de doces, mas, quando herdou a loja,
um membro duma outra casta qualquer deve ter-lha roubado com
a ajuda da polícia. O meu pai não teve barriga para protestar. Foi
por isso que ele caiu tão fundo, até à lama, ao nível dum condutor
de riquexó. Foi por isso que eu fui impedido de cumprir o meu des-
tino de ser gordo, de pele clara e sorridente.
Resumindo — nos bons velhos tempos, havia mil castas e destinos
na Índia. Hoje em dia, existem apenas duas castas: Homens de
Barriga Grande e Homens de Barriga Pequena.
E apenas dois destinos: comer — ou ser comido."
(retirado de "O Tigre Branco" de Aravind Adiga)
06 Setembro, 2009
inspiração é respirar
A poesia de João Negreiros na voz do elenco do
Teatro Universitário do Minho, hoje às 21 e 30 no Clube literário
do Porto.
"Espectáculo e percurso antológico da poesia de João Negreiros
que tem como objectivo traçar uma rota que vai desde as suas
tendências Neo-Surrealistas até à lírica mais conceptual e sonora.
A interpretação dos actores visa ser oral, naturalista e inovadora,
tornando a literatura mais óbvia, mais universal e mais acessível.
É um espectáculo de emoções extremas e dos sentimentos mais
íntimos e guarda os momentos mais carinhosos que só se par-
tilham com os amantes, os amigos e o público."

"Cinco actrizes, jovens, contagiam quem as ouve e vê com alguns sobressaltos de coração, angústias de pele e ternuras inocentes.
Não é apenas um espectáculo credível, pela amostra de veia solta ou entrega de corpo. É um espectáculo de uma intensidade capaz de, a qualquer momento, nos tirar do sítio, do conforto e da serenidade de espectadores passivos. Num espectáculo do João, com gente que anuncia talento como esta, somos todos cúmplices. Ou então já estamos mortos."
Miguel Carvalho, no blogue "Devida Comédia"
Teatro Universitário do Minho, hoje às 21 e 30 no Clube literário
do Porto.
"Espectáculo e percurso antológico da poesia de João Negreiros
que tem como objectivo traçar uma rota que vai desde as suas
tendências Neo-Surrealistas até à lírica mais conceptual e sonora.
A interpretação dos actores visa ser oral, naturalista e inovadora,
tornando a literatura mais óbvia, mais universal e mais acessível.
É um espectáculo de emoções extremas e dos sentimentos mais
íntimos e guarda os momentos mais carinhosos que só se par-
tilham com os amantes, os amigos e o público."

"Cinco actrizes, jovens, contagiam quem as ouve e vê com alguns sobressaltos de coração, angústias de pele e ternuras inocentes.
Não é apenas um espectáculo credível, pela amostra de veia solta ou entrega de corpo. É um espectáculo de uma intensidade capaz de, a qualquer momento, nos tirar do sítio, do conforto e da serenidade de espectadores passivos. Num espectáculo do João, com gente que anuncia talento como esta, somos todos cúmplices. Ou então já estamos mortos."
Miguel Carvalho, no blogue "Devida Comédia"
05 Setembro, 2009
31 Agosto, 2009
não pensam em quem salpicam com a espuma
Vinte e oito jovens banham-se na praia,
Vinte e oito jovens tão cordiais;
Vinte e oito anos de vida feminina e tão solitários.
Ela possui a bela casa onde se ergue a margem,
Esconde-se formosa e elegante atrás dos estores da janela.
De qual dos rapazes gosta mais?
Ah, até o mais humilde lhe parece belo.
Aonde vais, senhora? Estou a ver-te,
Lá no meio da água, ainda que estejas imóvel no teu quarto.
Dançando e rindo chegou à praia a vigésima nona banhista,
E eles não a viram, mas ela viu-os e amou-os.
Húmidas cintilavam as barbas dos jovens, a água escorria dos cabelos longos,
Pequenos jorros percorriam esses corpos.
Uma mão invisível também percorreu os seus corpos,
Descendo trémula da fronte e das costelas.
Os jovens flutuam de costas, os ventres brancos destacam-se ao sol,
Vinte e oito jovens tão cordiais;
Vinte e oito anos de vida feminina e tão solitários.
Ela possui a bela casa onde se ergue a margem,
Esconde-se formosa e elegante atrás dos estores da janela.
De qual dos rapazes gosta mais?
Ah, até o mais humilde lhe parece belo.
Aonde vais, senhora? Estou a ver-te,
Lá no meio da água, ainda que estejas imóvel no teu quarto.
Dançando e rindo chegou à praia a vigésima nona banhista,
E eles não a viram, mas ela viu-os e amou-os.
Húmidas cintilavam as barbas dos jovens, a água escorria dos cabelos longos,
Pequenos jorros percorriam esses corpos.
Uma mão invisível também percorreu os seus corpos,
Descendo trémula da fronte e das costelas.
Os jovens flutuam de costas, os ventres brancos destacam-se ao sol,
não perguntam quem os abraça fortemente,
Não sabem quem respira inclinado, pendente e curvo como um arco,
Não pensam em quem salpicam com a espuma.
Não sabem quem respira inclinado, pendente e curvo como um arco,
Não pensam em quem salpicam com a espuma.
do "Canto de Mim Mesmo" de Walt Whitman
(com tradução de José Agostinho Baptista)
(com tradução de José Agostinho Baptista)
29 Agosto, 2009
mais uma leitura estival
" E assim conhecemos Luis Antonio Vera, aliás Verita, pelo afectuoso
e simpático que era, engenheiro agrónomo de profissão, enólogo de
especialização, em França e onde haja bom vinho, homem de eterno
sorriso que nunca na vida tinha tido um problema, e que no seu eno-
lógico e motociclista percurso pelos vinhedos de Europa e meia ia
deixando um rasto de alegria e positivismo absoluta e contagiosamente
maravilhosos. Porque para Verita todo o bem era possível e todo o mal
pura e simplesmente impossível. Verita era um exemplar único de peru-
ano optimista de fio a pavio e de cabo a rabo, de sol a sol e de ano após
ano e de década após década, de manhã, à tarde e à noite. Eu, um dia,
por exemplo, perguntei-lhe por César Vallejo, o mais metafisicamente
triste e pessimista de todos o s peruanos, o que é dizer muito, e que
inclusivamente considerava muito séria e gravemente a possibilidade
de ter nascido num dia em que Deus estava doente...
— Não me venhas com histórias, maninho — interrompeu-me Verita,
acrescentando: — Sem vontade de querer discutir com todo um homem
de letras de câmbio, eh eh, como tu, permite-me que te diga que, por
maior e genial que fosse Vallejo como poeta, só um tomates tristes se
lembraria de pensar uma coisa assim, e ainda por cima pespegá-la num
poema.
— Está bem, mas ele lembrou-se.
— Balelas, maninho. Põe-me tu o Cholo Vallejo à frente e dou-lhe tal
injecção de arrebita fruta que o converto em Walt Whitman. A esse
homem de certeza que lhe faltava uma mulherzinha boa e um desses
vinhos cujo segredo só este peitinho possui."
(excerto do conto "Verita e a Cidade-luz" reunidos no livro "Guia Triste
de Paris" de Alfredo Bryce Echenique)
e simpático que era, engenheiro agrónomo de profissão, enólogo de
especialização, em França e onde haja bom vinho, homem de eterno
sorriso que nunca na vida tinha tido um problema, e que no seu eno-
lógico e motociclista percurso pelos vinhedos de Europa e meia ia
deixando um rasto de alegria e positivismo absoluta e contagiosamente
maravilhosos. Porque para Verita todo o bem era possível e todo o mal
pura e simplesmente impossível. Verita era um exemplar único de peru-
ano optimista de fio a pavio e de cabo a rabo, de sol a sol e de ano após
ano e de década após década, de manhã, à tarde e à noite. Eu, um dia,
por exemplo, perguntei-lhe por César Vallejo, o mais metafisicamente
triste e pessimista de todos o s peruanos, o que é dizer muito, e que
inclusivamente considerava muito séria e gravemente a possibilidade
de ter nascido num dia em que Deus estava doente...
— Não me venhas com histórias, maninho — interrompeu-me Verita,
acrescentando: — Sem vontade de querer discutir com todo um homem
de letras de câmbio, eh eh, como tu, permite-me que te diga que, por
maior e genial que fosse Vallejo como poeta, só um tomates tristes se
lembraria de pensar uma coisa assim, e ainda por cima pespegá-la num
poema.
— Está bem, mas ele lembrou-se.
— Balelas, maninho. Põe-me tu o Cholo Vallejo à frente e dou-lhe tal
injecção de arrebita fruta que o converto em Walt Whitman. A esse
homem de certeza que lhe faltava uma mulherzinha boa e um desses
vinhos cujo segredo só este peitinho possui."
(excerto do conto "Verita e a Cidade-luz" reunidos no livro "Guia Triste
de Paris" de Alfredo Bryce Echenique)

















