04 Julho, 2009

férias (o blogue ainda não sei)

vento doido varrendo
a água secreta da piscina -
a lua é uma lâmina.

02 Julho, 2009

sempre curiosos os estrangeiros olhos

" […] A crise tem, pelo menos, um lado bom. Desmoronado o
modelo económico espanhol, baseado no tijolo, o litoral alen-
tejano respira mais tranquilo. À mesma latitude de Alicante,
embora com àguas mais frias, Portugal conta com imensas
praias virgens que só podem provocar inveja a catalães, valen-
cianos ou andaluzes. A riqueza de um país também se mede pelo
respeito pelo seu território e pela sua beleza natural. E a sensi-
bilidade estética dos portugueses pela sua paisagem
urbana e natural sempre esteve muito acima da nossa.
Graças a Deus que ainda temos Portugal.
À margem das grandes concentrações turísticas do Algarve, a
costa entre Sagres e Setúbal tem inúmeras praias paradisíacas.
As melhores são as que estão dentro do Parque Nacional de
Sagres e no Sudoeste Alentejano, como a praia do Amado ou a
praia da Barriga. Sem desmerecer a Comporta e muitas outras.
Trata-se de uma costa escarpada, apenas pontuada por algum
modesto enclave pesqueiro ou a aceitável povoaçãozinha turís-
tica da Zambujeira do Mar. E por uma quantidade de quintas de
turismo rural de qualidade, a um passo da costa.
O litoral alentejano é um dos últimos redutos costeiros
da península que resistiu à especulação imobiliária. A
excepção, a península de Tróia, junto de Setúbal e já muito
próxima de Lisboa, confirma a regra. A sua renovação urbana
fez-se depois de se derrubarem os piores arranha-céus, do tipo
Manga del Mar Menor, e apostando numa arquitectura de quali-
dade.
Depois de ter sido a guarda avançada do Ocidente e o pio-
neiro da globalização — veja-se a Índia, a que Portugal chegou
antes que a "Las Indias", em contraste com Castela —, com a sua
lentidão, a sua luz e os seus sabores, Portugal parece resignado
ao seu destino de balneário da Europa."



(Excerto do artigo "O balneário da Europa" de Jordi Joan Baños
para o La Vanguardia de Barcelona e publicado este mês no nosso
país pelo Courrier Internacional. Sublinhados meus.)


01 Julho, 2009

a deus a da dança

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© 2009

30 Junho, 2009

make up

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"Make Up", 2007 de Simin Keramati (n. 1970, Teerão)

29 Junho, 2009

deixei a luz em

dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor, a respiração que
recua


valter hugo mãe


de "três minutos antes de a maré encher"

28 Junho, 2009

casa da felicidade

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Monobloco com participações especiais de Zé Renato e Roberta Sá
Casa da Música, 27 Junho 09

26 Junho, 2009

escutar

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© Porto, 2009

25 Junho, 2009

roteiro sentimental

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© Porto, 2009

23 Junho, 2009

pop ular e pra pular

Ó meu querido e caprichoso S. João!
Guarda lá pra depois a chuva e o frio
que é certa a noite de folia e diversão
e o Porto quero correr de fio a pavio!

22 Junho, 2009

este nosso mar

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© Porto, Maio 2009

20 Junho, 2009

loving

you

19 Junho, 2009

Irão em convulsão,
o mundo clama — a mosca
na mão de Obama.

18 Junho, 2009

o escrínio

um postal da cidade do incomparável 
Manoel de Barros





Um poeta municipal já me chamara a cidade de escrínio.
Que àquele tempo encabulava muito porque eu não
sabia o seu significado direito.
Soava como escárnio.
Hoje eu sei que escrínio é coisa relacionada com jóia,
cofre de bugigangas...
Por aí assim.
Porém a cidade era em cima de uma pedra branca
enorme
E o rio passava lá embaixo com piranhas camalotes
pescadores e lanchas carregadas de couros vacuns fedidos.
Primeiro vinha a Rua do Porto: sobrados remontados na
ladeira, flamboyants, armazéns de secos e molhados
E mil turcos babaruches nas portas comendo sementes
de abóbora...
Depois, subindo a ladeira, vinha a cidade propriamente
dita, com a estátua de Antônio Maria Coelho, herói da
Guerra do Paraguai, cheia de besouros na orelha
E mais o Cinema Excelsior onde levavam um filme de
Tom Mix 53 vezes por mês.
E tudo o mais.
Escrínio entretanto era a Negra Margarida
Boa que nem mulher de santo casto:
Nhanhá mijava na rede porque brincou com fogo de dia
— Mijo de véia não disaparta nosso amor, né benzinho?
Yes!
Um dia Nhanhá Gertrudes fazia bolo de arroz.
Negra Margarida socava pilão.
E eu nem sei o que fazia mesmo.
Veio um negro risonho e disse sem perder o riso:
— Vãobora comigo, negra?
E levou Margarida enganchada no dedo pra São Saruê.
Daí eu fiquei naquele casarão que tinha noites de medo.
Nhaná sonhava bobagens que eu fugi de casa pra ser
chalaneiro no Porto de Corumbá!
O mijo de Nhanhá sentia, no pingar, um vazio inédito e
fazia uma lagoinha boa no mosaico...
Desse tempo adquiri a mania de mirar-me no espelho
das águas...




(retirado de "Poemas Concebidos Sem Pecado", 
Editora Record, 1999)

16 Junho, 2009

meia-noite, 16 de junho

(sempre "a teus pés", de Ana Cristina César)


Não volto às letras, que doem como uma catástrofe. Não
escrevo mais. Não milito mais. Estou no meio da cena, entre
quem adoro e quem me adora. Daqui do meio sinto cara
afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de
Londres caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e
toma e então exige respeito, madame javali. Não suporto
perfumes. Vasculho com o nariz o terno dele. Ar de Mia Farrow,
translúcida. O horror dos perfumes, dos ciúmes e do sapato
que era gêmea perfeita do ciúme negro brilhando no gogó. As
noivas que preparei, amadas , brancas. Filhas do horror da noite,
estalando de novas, tontas de buquês. Tão triste quando
extermina, doce, insone, meu amor.

14 Junho, 2009

fairytale in the supermarket

12 Junho, 2009

nas asas do amor errante

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© 2009 (à esquerda, foto minha digitalmente alterada 
da obra/instalação assinada por Luís Miguel na festa 
"12 Horas no Coração da Baixa")

10 Junho, 2009

era uma vez este país

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© 2009

08 Junho, 2009

(em lenta câmara)

"Jane era a guardiã dos filmes da família. Costumava vê-los sozinha, 
quando não tinha mais de sete anos. Ia buscar o projector de 8mm, 
montava-o, punha o quarto às escuras. A família, antes dela nascer. 
A família, depois dela nascer. Todos a correr para a câmara, quando 
o pai gritava acção. O pai dizia que gostava que tudo tivesse muito 
movimento. O passeio a West Point, antes dela nascer. A ida ao 
Canadá, quando ela tinha oito anos. A irmã, quando era adolescente 
e detestava ser fotografada. Essa irmã em bebé, um anjinho a sorrir 
para a câmara, papá. A outra irmã a chorar, o sol a iluminar-lhe o 
cabelo brilhante. Está sentada numa cadeira estofada, quase toda à 
sombra, lágrimas pela cara abaixo, a boca vermelha e lassa de fadi-
ga. A luta entre a irmã e a mãe. A mãe afastando a câmara com a 
mão, fugindo com a cabeça para o lado. O pai bronzeado, depois de 
uma viagem que tinha feito sozinho às Bermudas, quando a mãe 
estava grávida dela. Cenas dessa gravidez. Ela move-se pesadamente 
em direcção à câmara, as filhas correndo para ela, saltando em frente 
dela. São pequenas e activas, ela é grande, os movimentos contidos, 
forçados. Em câmara lenta, é claro que os movimentos e gestos
revelarão mais, como se houvesse ali a mão de Proust e não apenas
a da tecnologia. Jane não põe o projector em câmara lenta quando é 
pequenina. À velocidade normal, viu-se a si própria, seis meses de 
idade, a tomar o biberão dado pela mãe que está olhar para a câmara, 
papá, de modo a que o biberão não se enfie pela boca de Jane, mas 
acena perto dele."


(excerto de "Casas Assombradas" de Lynne Tilman)

06 Junho, 2009

no lado a da noite b fachada

video


"Estando D. Filomena sentadinha em seu balcão
passou por ali um soldado logo lhe apertou a mão
aperta aperta ó soldadinho agora tens ocasião
que o meu marido foi à caça lá para os montes de aragão
se tu queres que ele cá não volte deita-lhe uma maldição
os corvos lhe tirem os olhos as águias o coração
e os cães com que ele caça o tragam de procissão"



("D. Filomena", canção tradicional, versão de Adélia Garcia 
adaptada por b fachada)

05 Junho, 2009

Depois de fazer
a cereja baloiçar,
rebento-a na boca.





um pequeno tesouro de 
Mayuzumi Madoka

04 Junho, 2009

definição do nada

por Francisco Brines



Não se trata de um vazio, que é carência
nem do reverso da luz;
pois tudo o que nega constitui.
Tão-pouco do silêncio, que embora não seja supressão,
difunde numa infinidade uma natureza extensa.
Porque falamos desde este fiel engano da ficção da palavra
podemos enunciar esta pausa solene:
não se trata da existência certa do conceito de Deus como Impossível.
Nem sequer é tão-pouco a prévia negação de alguma insuficiência.

Pensais que ele é um frio, mas essa é a vossa carne.
Nada nega e afirma sua firme coerência.

02 Junho, 2009

memórias da festa

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© Serralves em Festa, Maio 2009

01 Junho, 2009

em certa medida contas acertadas com o passado

"Imaginem um Funk profundamente abatido, uma música de dança
que se move sempre a partir da consciência da solidão e da tristeza.
Como Funk, impoluto, tribal, impossível de não dançar. Como Fado,
trágico, carente, místico, impossível de não magoar. É precisamente
essa a sabotagem dos A Certain Ratio: utilizar as formas exuberantes
da alegria para transmitir os conteúdos ensimesmados da tristeza.
E ao fazê-lo (eis o fascínio principal) esvaziam ambas as coisas e 
denunciam a fragilidade do pensamento dominado pelo binómio 
forma/conteúdo.
E dança-se. E sofre-se. E descobre-se.
Uma espécie de Fado, numa espécie de Funk, numa espécie de 
Música."



escrevia assim desta forma apaixonada, para o desaparecido Se7e
o nosso inevitável M.E.C., a meio ano de distância desse mítico 
Festival de Vilar de Mouros, quando teve nas mãos um exemplar, 
ainda de rótulo branco, dessa obra-prima que é Sextet, anun-
ciando-o como o "primeiro disco de música popular de 1982" e 
provavelmente o último...

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© A Certain Ratio, Serralves em Festa, 31 maio 2009

29 Maio, 2009

o museu de uma vida

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© Dezembro 2005 (exposição "Anschool II" de Thomas Hirschhorn, Museu de Serralves)

O museu de uma vida. O museu da minha vida.
O museu para uma vida.
Como seria hoje bem mais pobre se não tivesse tido a sorte de 
poder frequentemente usufruir, tirar proveito, alimentar-me,
perder-me, ganhar-me, isolar-me, questionar-me, rejubilar, 
conviver com as mais diversas exposições que o Museu de 
Serralves foi exibindo ao longo destes dez anos.
O museu para toda uma vida. O museu das nossas vidas.

28 Maio, 2009

variações pela cidade

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© 2009 (aproveitando-me do anónimo artista que espalhou mil 
estranhos seres alados - origamis? - pelas ruas do centro do Porto)

27 Maio, 2009

agonia

de Cesare Pavese
(tradução de Carlos Leite)

Irei pelas ruas até cair morta de cansaço
saberei viver sozinha e reter nos olhos
cada rosto que passa e continuar a ser a mesma.
Esta frescura que sobe e me busca as veias
é um despertar que em manhã nenhuma sentira
tão real: sinto-me simplesmente mais forte
que o meu corpo e um arrepio mais frio acompanha a manhã.

Longe vão as manhãs em que tinha vinte anos.
E amanhã, vinte e um: amanhã sairei para a rua,
lembro-me de cada pedra da rua e das nesgas de céu.
A partir de amanhã as pessoas ver-me-ão outra vez
de pé e caminharei direita e poderei parar
e mirar-me nas montras. Nas manhãs do passado,
era jovem e não sabia, nem sabia querer
que era eu que passava — uma mulher, dona
de si mesma. A rapariguinha magra que fui
despertou dum pranto que durou anos:
agora é como se esse pranto nunca tivesse existido.

E desejo só a cores. As cores não choram,
são como um despertar: amanhã as cores
voltarão. Cada mulher sairá para a rua,
cada corpo uma cor — e até as crianças.
Este corpo vestido de vermelho claro
após tanta palidez voltará à vida.
Sentirei à minha volta deslizarem os olhares
e saberei que sou eu: olhando à volta,
ver-me-ei no meio multidão. Em cada nova manhã,
sairei para a rua em busca das cores.

26 Maio, 2009

(o mundo é um medo que se avizinha)




Que hora estranha. Pensas: sozinha.
— Tirando o enredo o mundo é um medo
que se avizinha.
Te aceitaria o mundo aceito?
Nunca. Sozinha.
Ele te cerca de seu segredo
raso e profundo,
tal qual se fosses, cega criatura,
razão segura de seu degredo.





poema de Maria Ângela Alvim

23 Maio, 2009

al ela

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© Famalicão, 22 maio 2009

22 Maio, 2009

guardar a senha no coração desta casa

Guardo o meu coração no coração da palavra. 
E quando ele cantar alguém vai notar. Alguém que lê 
por acaso. Mas em qual palavra guarda-rei meu coração?
Numa também ao acaso. Não a es-colherei dentre todas 
as da Língua. E o acaso faz com que eu o guarde nesta 
palavra: Amor.  Já que o meu coração Aí ficou não mais 
carece de ser guardado. Liberto-o nela. Meu coração voa.






pertencente ao último livro do meu impertinente amigo
Paulo Luiz Barata, "Senya Semiotyka", por ele publicado no Rio de Janeiro, terra natal, em 2008.
Há muitos anos, neste mesmo dia, uma qualquer e inaudita 
constelação astral jogou no universo este ser desafiante e incatalogável, esta espécie de moderno jogral que veio para desafiar as ordens estabelecidas ...

21 Maio, 2009

so h.appy birth.day

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© 2009