"A Rua da Estrada é uma coisa mal-amada pela mesma razão
de muitas outras coisas cuja identidade é flutuante, não
encontrando estabilidade por aquilo que é mas sim pelo que
deixou de ser ou ainda não é. É como um híbrido com a sua
identidade cruzada e manipulada, ou ainda pior, como um
transgénico que incomoda pelo simples facto de transgredir
aquilo que o originou, no limite, a obra do próprio Criador.
A estrada-rua é o elemento mais banal das formas e processos
de urbanização em Portugal, nos antípodas de qualquer ideal-tipo
do que seja a boa e genuína cidade. Não vale a pena apostar tudo
na idolatria da cidade histórica, no trauma de se ter perdido isto e
aquilo e, desse trauma que ficou no rol das perdas, já não se ter
discernimento sequer para avaliar se aquilo ainda é uma cidade
ou se é um simulacro cénico limpinho e abrilhantado para mais
um parque temático com programação contínua para o negócio
turístico. Assim está a ficar Óbidos. Não há problema. As cidades
também se prestam a isso mas não devem é ser só isso. (...)"
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Um livro imperdível, extraordinariamente lúcido e bem-disposto,
do geógrafo
Álvaro Domingues, brevemente numa qualquer esquina
duma rua perto de si. Quiçá, estrada.