08 junho, 2009

(em lenta câmara)

"Jane era a guardiã dos filmes da família. Costumava vê-los sozinha, 
quando não tinha mais de sete anos. Ia buscar o projector de 8mm, 
montava-o, punha o quarto às escuras. A família, antes dela nascer. 
A família, depois dela nascer. Todos a correr para a câmara, quando 
o pai gritava acção. O pai dizia que gostava que tudo tivesse muito 
movimento. O passeio a West Point, antes dela nascer. A ida ao 
Canadá, quando ela tinha oito anos. A irmã, quando era adolescente 
e detestava ser fotografada. Essa irmã em bebé, um anjinho a sorrir 
para a câmara, papá. A outra irmã a chorar, o sol a iluminar-lhe o 
cabelo brilhante. Está sentada numa cadeira estofada, quase toda à 
sombra, lágrimas pela cara abaixo, a boca vermelha e lassa de fadi-
ga. A luta entre a irmã e a mãe. A mãe afastando a câmara com a 
mão, fugindo com a cabeça para o lado. O pai bronzeado, depois de 
uma viagem que tinha feito sozinho às Bermudas, quando a mãe 
estava grávida dela. Cenas dessa gravidez. Ela move-se pesadamente 
em direcção à câmara, as filhas correndo para ela, saltando em frente 
dela. São pequenas e activas, ela é grande, os movimentos contidos, 
forçados. Em câmara lenta, é claro que os movimentos e gestos
revelarão mais, como se houvesse ali a mão de Proust e não apenas
a da tecnologia. Jane não põe o projector em câmara lenta quando é 
pequenina. À velocidade normal, viu-se a si própria, seis meses de 
idade, a tomar o biberão dado pela mãe que está olhar para a câmara, 
papá, de modo a que o biberão não se enfie pela boca de Jane, mas 
acena perto dele."


(excerto de "Casas Assombradas" de Lynne Tilman)

2 Comentários:

Blogger Isabela Figueiredo disse...

Deixei-te um convite no meu blogue.

10 junho, 2009 00:18  
Blogger francisco carvalho disse...

Mas onde foste tu desencantar aquele Joaquim, rapariga?...

Já me lixaste.
Não sei. Dá-me tempo.
;)

10 junho, 2009 00:27  

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