30 agosto, 2007

"oitenta e sete"

mais um dos "cem pequenos grandes romances" , retirado
desse fabuloso livro de Giorgio Manganelli, "CENTÚRIA"


"Que aquele homem está incomodado, vê-se claramente.
Está irrequieto; caminha, pára, apoia-se num só pé, parte de
novo correndo; ei-lo parado numa esquina de rua; espreita
para a rua seguinte, hesitante; suspira e apoia-se à parede.
Na realidade, está extremamente insatisfeito com a sua vida,
mas tem ideias bastante confusas quanto às origens de tal in-
satisfação. Podia ser, pensou, o uso do tempo. O tempo não
tem regra, mas finge tê-la. Nada é mais difícil que tratar com
o tempo. Em certos dias, os segundos escorrem como que
libertos de uma clepsidra empregada como prisão; mas muitas
vezes são de desigual grossura e, ao viver, tropeça neles con-
tinuamente. Pensa que ainda lhe restam anos para viver, e
não sabe a sua duração. Maneja os botões mentais do tempo,
e eis que ele pára totalmente; de uma hora à outra passam
dez horas; os segundos são longos como uma rua, e a rua,
como é sabido, é sempre feita de quartos de hora, mas qua-
tro ruas não fazem uma hora, fazem seis dias. O sétimo é
uma praça, e atravessando-a, engana-se. Procurou adestrar o
futuro, e obrigá-lo a um ritmo menos cansativo. Comprou um
grande relógio, para ensinar o tempo ao tempo, mas o tempo
não se aprende a si mesmo. Se carrega num outro botão, o
tempo corre, escapa-se, foge. As ruas encurtam-se, e se não
trava logo, dentro de uma semana a sua vida estará acabada e
nada terá feito para justificar o seu nascimento. Seria preciso
inventar um relógio capaz de capturar o tempo e obrigá-lo a
manter aquele passo, sempre, todos os dias, toda a vida. Mas
ele seria o primeiro a escaqueirar um tal relógio. Por conse-
guinte, não pode deixar de procurar ajustamentos provisórios
e inseguros, já que o tempo não respeita os acordos, não por-
que seja desleal, mas porque é por sua vez vítima do tempo.
Na realidade, como o senhor descontente suspeita desde há
algum tempo, também o tempo está descontente consigo, mas
não consegue resolver o seu próprio mal-estar, porque não
tem nenhum modo para medir-se, a não ser ele próprio; o
resultado é inutilmente injusto, como é natural, e o tempo
nunca sabe se está a correr, a contemporizar, ou se está pa-
rado. Por isso, o tempo pede continuamente desculpa a todos,
sem querer saber se é razoável que peça desculpa."

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