22 abril, 2009

a evoluída doutora tatiana

"É espantoso que os seres humanos sejam tão bonzinhos como são.
Pensamos em nós como sendo bastante violentos, e somos. Mas a
maioria dos outros mamíferos são mais. Em algumas espécies de
esquilos, um quarto das crias são mortas por outro membro da sua
espécie. O problema é o tipo que vive ao lado. Os humanos são muito
invulgares, por conseguirem viver juntos em densidades populacio-
nais tão grandes. Não há nada parecido com as cidades no reino
animal. Uma das razões porque é difícil criar aranhas é porque se
matam umas às outras. Os humanos têm uma grande capacidade para
a violência, mas na maior parte do tempo não somos violentos.
Comecei a falar disto porque há 18 meses pediram-me para escrever
um artigo sobre se seríamos egoístas ou generosos por natureza [re-
vista The Atlantic]. Depois de muita agonia, cheguei à conclusão de
que, para mim, a pergunta não fazia sentido. Quase toda a gente é
ambas as coisas. Há muito poucas pessoas que sejam inquestionavel-
mente más, egoístas, ou completamente boas e generosas. A natureza
humana é muito mais multifacetada, mais complexa. E descobrimos
que há mutantes ao nível comportamental: as pessoas com síndrome
de Williams podem memorizar a frase "não fales com estranhos", mas
não conseguem agir dessa maneira. Estas pessoas têm menos uns 20
genes e parece óbvio que pelo menos alguns estarão relacionados com
a desconfiança! Não conseguem desconfiar.


Mas não costumamos pensar em nós de uma forma assim tão opti-
mista, vemo-nos como uma espécie violenta...


Acho que isso é porque não vemos o que se passa noutras espécies. E
também me parece que hoje somos menos violentos do que há mil anos.
A pessoa com maiores probabilidades de te matar de forma violenta és
tu própria, o teu reflexo no espelho. O suicídio é muito mais comum do
que o homicídio. Isto serve também para demonstrar que os humanos
são relativamente não violentos, uma vez que somos o nosso maior
problema! Na verdade, somos uma espécie muito simpática, em geral.




(no "Público" de 18 de Março, entrevista assinada por Clara Barata à
famosa (e elegantérrima!) bióloga e escritora Olivia Judson, autora
do livro "O consultório da Drª Tatiana para Toda a Criação")


2 Comentários:

Anonymous Milton Gaspar disse...

Que post legal, Francisco. Para nós, aqui no Brasil, sempre às voltas com a violência, é bom ler algo assim. Sou seu fã e acompanho sempre seu blog, apesar de nosso amigo (in)comum, Paulo Barata, ter me excluido do seu rol de amigos. Abraço.

22 abril, 2009 15:13  
Blogger francisco carvalho disse...

Obrigado, Milton. Mas que bela surpresa estas suas palavras!

Nosso incomum amigo, para mal dos pecados dele, teve que regressar hoje ao Brasil. Estou esperando que a viagem tenha corrido bem e aguardando que ele diga alguma coisa. Não faltará muito para ele vir aqui deixar um dos seus sempre imprevisíveis comentários. Digo eu, mas com ele nunca se sabe...
;)

Aquele abraço

(o vídeo agora já rola, vale a pena espreitar...)

23 abril, 2009 00:06  

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