30 maio, 2008

espera do elevador

Ao entrar no prédio onde trabalho, numa destas pluviosas
manhãs de Maio, tossico um pouco esforçado «bom-dia»,
como que a volatilizar-se entredentes. O segurança atrás do
balcão corresponde ao cumprimento, mas sem tirar o olhar do
jornal aberto nas páginas de necrologia. Chamo o elevador.
Espero. «Esperar e levar a dor». Trocadilhos mentais. Nenhum
pensamento elevado. O corpo já cansado, vazio.
Não tenho muita vontade de falar e isso parece criar, como
habitualmente, uma espécie de agitado silêncio. Ele, de forma
resoluta, resolve então quebrar o embaraço ao mesmo tempo
que folheia o jornal, inclinando-o um pouco para eu poder ver
as fotos tipo passe que jazem nas funestas páginas, dispara:
«Mais uns que deixaram de poder fumar.»
O elevador enfim no rés-do-chão. Abro a porta, mas não consigo
dizer nada, não me ocorre dizer o quer que seja, nada assim tão
espontaneamente absurdo. Ele, os seus olhos por detrás dos
óculos algo desconcertados, acusando a lâmina da minha súbita
mudez, prossegue em jeito de lapidar conclusão: «Então, não é?!
Nós estamos aqui a olhar para eles, mas eles já nem sequer
podem espreitar para o lado de cá.»
Creio ter balbuciado umas quaisquer esganadas e desinspiradas
palavras, qualquer coisa baça como «Desse ponto de vista...»,
enquanto a porta do elevador justamente se fechava pondo ponto
final à coisa. A esta coisa.

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