30 setembro, 2006

o bebé

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© 2004 ( dois dias de vida)


" A cria do ser humano: deve haver de facto qualquer coisa a pro-
curar, a comprender a esse respeito.
É uma experiência repetitiva e descosida, e quando o bebé dorme a

vida retoma o seu curso, mas quando está acordado é a vida dele que
domina.

Estranhos dias do início, dos quais eu pouco ouvira falar; talvez por-

que durante eles se estabelece uma intimidade exclusiva, o vínculo,
a asfixia, a vertigem - dias divididos aproximadamente em seis par-
tes, nem dia nem noite, uma ou duas horas para a mamada, a mudan-
ça de fraldas, o adormecer de novo, uma ou duas horas de sono, e
recomeça-se.
[(...)]

Não é que antes eu não gostasse de bebés; é que não existiam. Não
havia qualquer ligação, qualquer relação entre eles e eu própria.
Sim, queria ter um filho, um dia. A palavra «bebé», piegas e redun-

dante, feria de invalidade tudo o que referia; tratava-se aos meus
olhos de uma questão menor. (...)

Antes, os bebés eram sobretudo corpos, ruidosos, sujos, que se
babavam, raramente bonitos. Eu preferia os bebés dos animais:
gatinhos, leõezinhos, bicharoquinhos.
Quando o bebé nasceu, comuniquei esta minha preferência àquele

que, insolitamente, se transformara no pai do bebé. Ele discordou de
mim tão friamente que mudei imediatamente de opinião: agora, pre-
firo os bebés. (...)

O bebé tornou-me sentimental; entregou-me à sentimentalidade. Per-

gunto-me o que se poderá fazer com esse vocabulário envelhecido.

Dizer o não-dito: tal é o projecto da escrita. A meia distância entre

dizer e não dizer há o cliché, que enuncia, apesar da usura, uma par-
te de realidade. O bebé entrega-me a uma forma de amizade com os
lugares-comuns; torna-me curiosa a seu respeito, faz com que eu os
levante como se fossem pedras para ver, por baixo deles, o correr
das verdades. (...)

Os bebés dos outros não existiam, compreendo-o agora, porque o be-

bé só existe na comunidade íntima, na sua ligação connosco, os seus
pais.
Damos-lhes nomes em ponto pequeno, nomes privados, que nos en-

chem de júbilo quando os pronunciamos; cheios de consoantes duplas,
de rimas e de soluços, de sons molhados de leite.

Quando está acordado, alimentado, limpo, quando não lhe dói nada e

olha para nós, é já, ao fim de poucas semanas, uma criança. Mas
depois da mamada, tem o seu rosto de recém-nascido: esmagado e
avermelhado pelo seio, besuntado de baba e leite, com os cantos dos
lábios enrugados, olhos fechados como punhos. (...) "

MARIE DARRIEUSSECQ, "O Bebé", Edições Asa, 2003

Comecei este livro este verão e não o acabei ainda; na verdade, é
como se não me apetecesse terminá-lo, pois estou sempre a re-
gressar às suas páginas inaugurais, a tão justa literatura em tão
difícil assunto...
Voltarei aqui a ele.

4 Comentários:

Blogger a rasar o ceu disse...

passa a existir para sempre no exacto momento em que é nosso.
o bebé reconcilia e faz-nos sentir que algo é possível.especial. diferente.


e passamos a amar. melhor. o outro.
todos.

.
acho.

ou apetece-me acreditar. que assim é.


beijo.

30 setembro, 2006 06:33  
Blogger M em Campanhã disse...

apetece comprar já, tão exactas as palavras. obrigada.

02 outubro, 2006 10:27  
Blogger francisco carvalho disse...

e se soubesses, M em Campanhã, que o comprei por apenas 2 euros e meio!...
mas mesmo mais caro, vale a pena comprar esse pequeno tesouro, cheio de palavras exactas, de reflexões sobre a maternidade nunca antes assim verbalizadas, de afirmações muito pouco - e ainda bem - politicamente correctas...

02 outubro, 2006 14:15  
Blogger feniana disse...

dela, apenas li, Estranhos Perfumes.
e gostei, apesar de "estranho"...

03 outubro, 2006 13:10  

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