24 maio, 2006

poema de um tempo distante

Ontem soube que um dos meus poetas mais queridos, José
Agostinho Baptista, um dia já aqui evocado neste meu es-
paço, tinha sido o vencedor do Grande Prémio de Poesia da
Associação Portuguesa de Escritores, 2004, que distinguiu o
livro Esta Voz É Quase O Vento.

E os ventos da memória levaram-me até a um inverno antigo.
Um tempo solitário numa cidade distante que passei a amar.
Um tempo e um lugar em que já tudo se afastou.
Estava em Barcelona. Gozava uns dias de liberdade e reflexão,
depois de um longa convalescença, depois de uma espécie de
milagre que me livrou da morte.
Uma tarde, numa esplanada a curtir o sol do fim de tarde medi-
terrânico, a ler As Canções Da Terra Distante, senti-me levado,
não sei já por qual perversa tentação, a fazer um poema com
palavras que não fossem minhas, a elaborar uma montagem de
frases ou versos literalmente roubados, a tornar assim também
meus esses 22 versos ou frases, praticamente um por cada um
dos vinte textos que davam corpo ao livro que estava a ler.
Creio ter conseguido um poema novo, autónomo, de alma plena
ainda que com sangue alheio.
Com o sangue de um poeta maior.
Mas sangue onde me senti.
Por isso, nunca me consegui desfazer desse texto.


Eu não dizia nada. Eu já não sei que perfil
decidia aquela face de tremenda solidão.
Onde te escondes, minha alma?
Ontem e hoje é apenas um rio que corre em mim.
Desastrosa vida. Agora é fácil. É fácil morrer.
Matou-me o amor.
O amor é apenas uma ilha onde cabe a dor da vida.
Já estava escrito que morria.
E o mar aprisiona os rapazes na maré que sobe pelas suas vidas.
(O teu nome breve escrito aqui, escrito em mim.)
Agora pareço o que sou, o que pouco valho, o que pouco digo.
Eu estou aqui mas não sei quando.
Só outro vinho distrairá o teu sonho de amantes,
o teu desgosto.
Estremeço. Só eu sei como cantava. Aos teus pés secaram
todas as lágrimas. Será isto a morte?
Há um tom fúnebre que desce sobre a minha vida.
Os meses fecham-se à volta do coração.
Ele sabe que pode matar, que pode morrer espantosamente:
quem eras tu, donzela de satã, arrebatando a minha lira?
Queria uma estação de cerejas eternas. Toda a virtude
reside nas fontes sem mácula do coração que ama,
do coração solitário.
Ignorar o meu nome, a minha casa, as minha sementes.
Quem escreve, escreve só, no ocaso das cidades.
Que espero ainda?

Barcelona, janeiro 95

5 Comentários:

Blogger MOLOI LORASAI disse...

UNI-VOS RAMALDENSES, CONTRA A ELITE QUE VOS ASSOMBRA!

ESPERO-VOS NO MOLHE DA FOZ, SÁBADO DIA 27 DE MAIO, ÀS DEZ DA MANHÃ.

A GUEVARA FICA DISPENSADA, POIS NÃO É RAMALDENSE E VIVE LONGE.

24 maio, 2006 13:31  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

Por falar em Guevara, estou preocupado com a Claudita. Ela pensa que trabalhar a sério seja igual a brincar de blog.
Tem mesmo que levar umas palmadas, como diz o outro.

25 maio, 2006 09:35  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

a questão central é quem ganha prêmio em vida de poeta, questiona-se a validade intemporal da mesma.

25 maio, 2006 09:37  
Anonymous Dina disse...

Gostei muito do seu blog! Parabéns
www.auto-poetico.blogspot.com

06 junho, 2006 01:21  
Blogger francisco carvalho disse...

Obrigado, Dina.
:)

06 junho, 2006 09:33  

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