18 agosto, 2009

ler essa dor maravilhosa

" A palavra 'lobo' salta para dentro do seu espírito como se fosse
a própria fera. Histórias de lobos da infância. Sonhos infantis com
animais de pêlos que picam e olhos cor do gelo, à banda, atentos,
pressentindo o sonhador nas florestas do sono. Aqui não há Mamã
para vencer o horror com uma canção de embalar. Este, pensa o
reverendo olhando em volta para os seus companheiros, podia ser
um bom momento para recuperar os confortos da oração, e mal
formulou um 'Pai Nosso' silencioso, com palavras incómodas,
grandes como ovos dentro da sua boca, quando todas as orações,
todos os pensamentos são instantaneamente suspensos.
O Sr. Featherstone pergunta: — O que foi...?
O segundo tiro é mais nítido que o primeiro. O coche pára, ninguém
fala. Um grito? Suspendem a respiração. Ouvem apenas o bater dos
seus próprios corações, a força do vento.
O reverendo diz:
— Caçadores?
— No meio disto? — escarnece a Sra. Featherstone.
— Terá sido um sinal? — diz o reverendo. — Um viajante aflito. Não
devíamos investigar, monsieur?
O Sr. Featherstone pergunta:
— Há bandidos por estas partes, monsieur?
About encolhe os ombros. Encolhe outra vez.
— Lamento. Há coisas que nem o próprio About sabe.
A Sra. Featherstone diz:
— Porque não vai um de vós ver o que é? Porque ficam todos
sentados?
— Mas com certeza, querida — diz o Sr. Featherstone — o meu
principal dever é proteger-te.
About diz:
— Bravo, monsieur. Por mim, já fui lá fora uma vez e não gostei.
Ainda tenho as meias muito molhadas.
Olham para o reverendo, que sustenta os olhares por momentos,
depois abotoa a gola do seu casaco, faz força para abrir a porta do
seu lado e salta, tão ligeiro quanto pode, para o mundo uivante."




(excerto de "A Dor Industriosa" de Andrew Miller)

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