06 junho, 2008

A única mulher

uma pequena história de Robert Walser, escrita em 1924/25
e publicada postumamente (retirado de "Histórias de Amor",
edição da Relógio D'Água e tradução de Isabel Castro Silva).

"Conheço uma importante musa que nada sabe de poesia, mas
que é ela própria um poema, o que para umpoeta é muito im-
portante. Quem é insolente com ela apenas se depara com o
seu magnífico espanto. Já lhe dediquei o meu canto uma ou
duas vezes, mas por ora fiquei sempre áquem. Ela afugentou-
-me, e eu ri alegremente, como se ela tivesse concedido uma
noite ao poeta, e ele respondesse com frieza, porque a sua fan-
tasia já lhe tivesse oferecido a visão do corpo dela. Nunca mais
voltarei a amar. Ela fez de mim uma criança que admira o
mundo, que segue a mais bela doutrina e teme a Deus. Os sa-
patos dela não são maravilhosos. Mas gosto bastante do guar-
danapo com que ela brinca. Nunca poderei voltar a vê-la, e no
entanto sou feliz, ainda que na verdade não devesse ser. Fui
um sem-vergonha com ela, porque a sua presença me deixava
a tremer e porque queria dar uma ilusão de superioridade e
porque achava tolo e quase odiava este estremecimento, este
amor. Mas quando estamos longe um do outro, brinco com
ela e afago-a, salto como um doido, como um rapazinho tonto.
Seria bem capaz de a esquecer aí uns quatro anos, mas depois
tudo voltaria outra vez. É espantoso saber isto! Nunca tinha
reparado no poder que uma rapariga tem. Toda a lealdade e
tudo o que em mim há de bom fica prostrado por terra diante
do vestido da única mulher. Estou tão alegre como só me sinto
de manhã cedo, e no entanto é meia-noite, e escrevo estas
linhas como se não as fosse dar a ler em niguém."

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