12 abril, 2007

Ave Maria, um poema de Frank O'Hara

Mães da América
deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado
ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
ou no quarto deles
odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente

maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos


(do livro "vinte e cinco poemas à hora do almoço" com
tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 1995)
(nota: não consegui seguir aqui a disposição gráfica

original do poema)

4 Comentários:

Blogger isabel mendes ferreira disse...

para mim uma surpresa. matinal.


avé.



______________

grata por mais esta descoberta!


_______________

oh santa ignorância a minha....

:)

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beijo.

12 abril, 2007 08:49  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

a literatura metálica americana faz bem logo de manhã!

12 abril, 2007 09:44  
Anonymous Anónimo disse...

e Moloi tem razão...



:))))))))))))))).


Y.

12 abril, 2007 10:04  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

DO ENGANO, fel, breu e Sol em Luiz Melodia, by Moloi.

Nova Iorque Novo Brasil Você mentiu É tudo espoleta! Nascido e criado no Morro de São Carlos, favela carioca sobreposta ao Largo do Estácio, quase no espaço, Luiz Melodia é criador sutil de enigmas, pois sabe que “ o poeta sempre é malandro”, um Novalis re-encarnado por ali mesmo;
enigmas que, submetidos a uma prova de coerência interna do sistema de suas composições-poemas, revelam que não são frases desconexas, para causarem efeito.

Pelo contrário, que equívoco seria alguém transmitir tanta emoção com o seu canto, utilizando-se do “auxílio luxuoso” do Blues, através de um canal repleto de palavras ocas. POETA expontâneo, porém adepto do PENSAMENTO. Que não se distancia do seu objeto artístico, como o fizeram em geral os seus colegas da MPB, os que passaram pela universidade. (Com alguns momentos de exceção, que é o caso da belíssima confissão Drão , de Gilberto Gil, embora esta totalmente controlada pelo consciente do autor. Quem mergulha e quem simula o mergulho, esta é a questão.)

Poeta que Começou com um pequenino enigma em Pérola Negra: “BABY TE AMO NEM SEI SE TE AMO”. Nos idos de 1972. Enigma quasi desvendado quando se observa a repetição da palavra engano na mesma letra. (1). E continuou pela vida a fora a Pensar o ENGANO, O AUTO-ENGANO, O ERRO, a essência da rima AMOR-DOR. Sempre com uma dose de ironia. “AMOR SÃO PALAVRAS CITADAS QUE UM DIA TAL POETA CITOU”.

12 abril, 2007 16:46  

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