20 dezembro, 2006

roubar laranjas

"(...) Como é que imaginas essa velhice?
Como um tempo de sabedoria. Uma sabedoria natural que tu
acumulas sem te dares conta. Vais perdendo memórias, mas
isso não é tão grave assim. Porque o fundamental não esqueces.
As configurações do prazer, da culpa.

Essa sabedoria traz humildade?
Traz uma humildade absoluta que é a gratidão. A verdadeira hu-
mildade é uma gratidão. No sentido de "olha lá a sorte que eu
tive". Voltamos ao que disse lá atrás. Saber apreciar isto de
estar vivo. Os objectos pequenos, o cheiro das coisas,
a maneira dos gatos entrarem em casa. A riqueza do
mundo, sem precisares de comprar seja o que for. Por
exemplo, no outro dia descobri uma quinta, a Quinta da Ribeira,
onde vendem pão embrulhado em cobertores, óptimo. Ainda não
tinham apanhado as laranjas, porque é muito cedo. Mas estava lá
o pomar. E eu atrevi-me e arranquei duas laranjas, mesmo quan-
do ia a passar um padre que olhou para o chão, como quem per-
doa, porque aquilo pertence ao seminário ou ao patriarcado, pa-
rece uma coisa do século XIX. Roubei essas laranjas, as pri-
meiras laranjas do ano, sacadas por mim, com as fo-
lhas e tudo, mais a rama. Estive uma hora e meia à vol-
ta das laranjas, com a Maria João. Partimos os gomos e
revisitámos todas as maneiras de comer laranjas. O
prazer, o cheiro, aquilo tudo esmigalhado, o óleo a
marcar os nossos braços. A comparação com outras la-
ranjas. É uma coisa que só se pode apreciar aos cin-
quenta anos. Se tu fizeres isso agora, não chegas lá da mesma
maneira. Falta-te a idade.

Há também o gozo da transgressão.
Claro. O prazer máximo daquilo que esteve no facto de as laranjas
serem roubadas. Eu sabia muito bem que estava a entrar numa
propriedade privada mas disse: "olha, vou apanhar à mesma". E
o padre deve ter pensado para os seus botões: "coitado,
olha-me aquele coxo a apanhar laranjas, o melhor é
perdoá-lo". Era um padre para aí com vinte anos, um
padre lá do seminário. Olhou para o chão como no fil-
me do Bresson. Ele a olhar para o chão e eu a roubar as
laranjas. A fruta roubada é uma coisa de putos. Tem um
sabor maravilhoso. Com a Internet é a mesma coisa: a euforia que
dá fazer downloads proibidos... Lembro-me que me fartava de
roubar livros com o meu irmão. Vestíamos uns casacos enormes,
andávamos de canadiana em pleno Agosto, para meter mais li-
vros nos bolsos. E o que não faltava lá em casa eram livros."

(Entrevista de José Mário Silva com Miguel Esteves Cardoso,
publicada no Diário de Notícias de 15 de Dezembro de 2006.
Dedico os sublinhados a Cristina Marti, minha blogger do ano, de
todos os anos.)

8 Comentários:

Blogger MOLOI LORASAI disse...

a minha melhor blogger é a Elsinore. Não gosto de intelectuais!Aliás, intelectual português é o Eduardo Lourenço, que é simples e crianção. O resto me dá arrepios, calafrios, coisas da mais densa noite.

20 dezembro, 2006 10:33  
Blogger Mendes Ferreira disse...

. A verdadeira hu-
mildade é uma gratidão.



____________
bom dia Francisco.

20 dezembro, 2006 10:43  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

A humildade acontece ANTES de qualquer gratidão. A gratidão vem depois, como consequencia de algo.
Uma coisa é vivê-la outra intelectualizá-la. Também digo bom dia ao Francisco.

20 dezembro, 2006 11:06  
Blogger C. disse...

obrigada Francisco, gosto tanto de laranjas :)

20 dezembro, 2006 14:39  
Blogger Carla de Elsinore disse...

agradecida, caro moloi, mas a cris também seria candidata a minha blogger do ano, se eu tivesse disso e não dá arrepios a ninguém. bom, não sei se era mesmo isto que eu queria dizer. penso que sim ;-)

20 dezembro, 2006 21:11  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

Elsinore, talvez não, porque você nunca votaria em você mesma, não ficaria bem!!!

(Moloi não é mole não, como diz o Francisco)

20 dezembro, 2006 22:04  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

não tenho nada contra a C.
A experiência americana na """cultura""" é muito diferente da européia.

20 dezembro, 2006 22:20  
Blogger alice disse...

há uns anos atrás. tive 19 a filosofia. por culpa do miguel esteves cardoso. a quem devoto admiração desde muito nova. quem me dera um dia poder agradecer-lhe.

aproveito para lhe desejar um bom natal, francisco. beijinhos.

22 dezembro, 2006 11:21  

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