17 setembro, 2006

a cidade no aroma de um café

«Pai, a Torre dos Clérigos é mesmo a mais alta do país? Era
tão giro que se pudesse dançar lá...»

Ensinar-lhe a saborear a Baixa.
Entrar nos sítios com história.
As janelas enormes coavam a luz dourada do fim de tarde.
Alguns turistas consultando mapas, pequenas tertúlias de velhos,
os empregados de uniforme. Lá fora, o sossego de uma cidade
sem bulício, abúlica, como que esquecida do mundo, como que
renegando o seu próprio passado...
Chocolate quente e um bolo sublime.
Sobre a mesa, um poema impresso no toalhete de papel, cujo
autor não consegui descortinar, exaltando a beleza e a atmosfera
do Café Guarany.

"Tuas janelas são oculares
para uma cidade que não dorme,
uma linha que permite que eu e o Porto
coexistamos, numa cumplicidade eterna..."


Nos dentes do garfo, ínfimos vestígios do bolo, a prova que era
mesmo sublime.
Apesar de tudo, ensinar-lhe a gostar da cidade.

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© Porto, Setembro 2006

6 Comentários:

Anonymous alice disse...

caro francisco,

gostei tanto do seu post que vou transcever um "poema do porto" que penso ter a ver com o espírito do seu, um beijinho para si, alice

"Adorava mostrar à minha mulher e principalmente à minha filha, os locais, os meus locais do meu Porto. As ruas que percorrera infindavelmente durante tantos e tantos anos. Crescera ali. Fora ali que me vira criança. E fora ali que depois me vira adolescente e depois um jovem adulto. Quando comecei a procurar por mim na vida, procurei-me insistentemente nessas ruas, como se as almas e os desígnios se pudessem encontrar nos espaços entre os paralelos molhados. Vi muitas vezes o dia nascer na minha cidade. Vi muitas vezes a neblina, e percebi de que forma se constróem os dias de outono, com a chuva miudinha, o céu carregado de cinzento, o vento frio em toda a parte, As folhas castanhas espalhadas pelo chão. A nostalgia que parecia crescer desde as casas, a nostalgia que parecia vir de tempos imemoriais. Eu era mais uma das almas que ali nascera, dos milhões de almas que ali haviam nascido através dos tempos. Um portuense, um determinado tipo de identidade cultural, um orgulho marcado na cidade. Ser portuense era muito isso, trazer no peito a mui nobre leal e invicta cidade. Era um portuense. Sou um portuense. Toda a vida, vivesse onde vivesse, fora sempre um portuense. Acredito que se é do lugar onde se nasce. Da mesma forma que se é da família em que se nasce. E como nada substitui a família, porque a família de sangue é a família de sangue, nada substitui a terra que nos viu nascer, essa força da origem, essa força que está para lá do tempo, e de todas as coisas que existem nos dias.
Por isso, mostrava com entusiasmo os locais, os meus locais. A minha cidade. A minha identidade cultural.
Era o apelo do granito, o apelo da chuva, o apelo dos dias frios, da humidade absurda, do inverno que molhado que gela os ossos. Tudo isso, tudo isso vinha das gerações da minha família que tinham vivido no Porto, que me contavam essas facetas da cidade, a tipicidade do seu inverno, a especificidade do seu verão. E no fim, o orgulho. O orgulho de ser portuense. Esse orgulho que tantas e tantas vezes era denegrido como se ser portuense implicasse alguma complexo de segunda cidade, de não ser capital. Nada disso. Eu amava a minha cidade. Não odiava as outras. Gostava de Lisboa. Amava Coimbra. Mas o Porto era o Porto. O Porto é o Porto. O Porto é a cidade onde eu nasci. É a cidade onde a minha família nasceu. É a cidade onde sempre esperei morrer. Porque sempre pensei que se deve conhecer o mundo, que devemos alargar os nossos horizontes, e que podemos fazer a nossa tenda em qualquer parte do planeta, porque há um substrato de humanidade que é comum a toda a espécie, mas a casa, a casa não. A nossa casa é só num sítio. A nossa casa não anda às costas. Fica. Onde sempre esteve. E um dia regressamos a casa. Como regressamos aos Domingos da infância. E sentimos que conhecemos o mundo, sentimos que desbravamos tudo o que pudemos desbravar, e que, tal como os guerreiros, é chegada a hora de repousar entre as mulheres e as crianças, entre a família, na nossa terra"

(autor: tiago gabriel)

17 setembro, 2006 18:29  
Blogger Fernando Moreira disse...

espero que tenhas ouvido o som do piano com temas de filmes e etc

17 setembro, 2006 23:52  
Anonymous guevara disse...

sabes que faço esses mesmos passeios com os meus sobrinhos. um deles disse, com 7 anos na altura, de noite: parece que estou num filme! é tãaaaao fixe!

18 setembro, 2006 02:31  
Anonymous guevara disse...

dir-te-ia tanta coisa acerca dos passeios... ò! mas creio que so têm valor para mim.

18 setembro, 2006 02:32  
Blogger francisco carvalho disse...

Obrigado, Alice.

18 setembro, 2006 10:32  
Blogger francisco carvalho disse...

Querida Guevara, para mim podes crer que terão sempre interesse...Mas darei tempo ao tempo. Um dia talvez os possa ler, de uma forma ou outra, no teu blogue.
;)

18 setembro, 2006 10:38  

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