10 fevereiro, 2006

SÊ QUEM ME LÊ, um poema de José Agostinho Baptista

"
Sê quem me lê,
decifrador de enigmas.

Folheia-me como a uma árvore de folha soltas,
se é outono.

Todas as palavras mentem, no interior da sua
obscuridade.
Nada te prende ao verso,
aos seus ínvios caminhos,
às suas seduções de sábia prostituta.

Que não cedas a essa luz de remotas lantejoulas,
às flores vivas que segura.

No intervalo das fontes,
nas imediações do rio, temível é a palavra, a
cólera de deus.

Se desceres os últimos degraus,
escutarás essa voz que ecoa nos labirintos e depois
só o fio através das cisternas -

ou talvez nas montanhas de fogo onde não suportarás
a claridade,
queimada de presságios.

Não oiças, não olhes:
ferem-te as palavras do deus e as suas garras de tigre
nos muros de um coração que não o teu:

devorado já pelas páginas que lês,
desprendendo-se das folhas e do outono,
batendo devagar. "

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© 2006

1 Comentários:

Blogger Patrícia Nogueira disse...

Não sei o que é mais bonito: o poema de José Agostinho Baptista ou a fotografia do Francisco Carvalho.

10 fevereiro, 2006 12:07  

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