10 março, 2007

"Ao rasgar uma velha foto"

de Eloy Sánchez Rosilio, traduzido por
Joaquim Manuel Magalhães.

Durante mais de trinta anos
conservei esta fotografia.
E, sem dúvida, bastante em vão.
Mal a terei visto
- ao encontrá-la, como hoje, por mero acaso
numa qualquer gaveta desordenada -
duas ou três vezes durante tanto tempo.
Quando tudo acabou entre nós
e tu, não obstante, eras
de alguma forma o meu presente ainda,
guardei-a para olhá-la no futuro.
E fi-lo a pensar que ao vê-la
ao fim dos anos
algo me chegaria daquela velha história
da minha primeira juventude: não sei,
uma emoção talvez, uma melancolia.
Mas nada me chega, excepto a certeza
de que também as lembranças se desgastam e morrem.
E é terrível aprender esta verdade.
Contemplo
a velha cartolina. Nela
sorri para mim uma rapariga que não está em sítio nenhum.
Para sempre te foste
no dia em que nos vimos pela última vez.
Nada regressa, nada.
A foto, diante dos meus olhos, apagou-se de repente.
E agora rasgo um papel que está vazio.

1 Comentários:

Blogger Pinky disse...

Não é necessariamente mau que algumas lembranças se desgastem e morram. Claro que era bom que isso só acontecesse às más... No entanto, a memória não é democrática (resta-nos esse consolo) e na sua senescência ficam-nos as coisas que mais nos marcaram. Temos é que relembrar sempre (e sempre e sempre...) as coisas boas e, dessa forma, "expulsar" as más...
As que não ficam é porque não tinham importância.

Beijinhos (de cá)

P.S.: Aqui neste computador da casa do Porto não tenho problemas a entrar no blogue. Palavra que não sei o que se passa com o meu portátil. Quem dera saber, Francisco, e resolver todos estes impertinentes bloqueios! Bom fds!

11 março, 2007 02:31  

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