26 fevereiro, 2006

"ler e escrever"

Uma crónica do escritor duriense João de Araújo Correia,
escrita em Janeiro de 1962. Mestre de nós todos, nas
palavras de um mestre maior, Aquilino Ribeiro.

" Não falta por aí quem saiba escrever. Ler é que pouca
gente sabe. Para escrever, basta garatujar, com mais
correcção ou menos correcção, com a maior elegância ou
sem elegância nenhuma, o que se pretende. O escrever é
acto de egoísmo. É a eloquência do eu com asas. Postas a
voar sobre o papel, ninguém as agarra. É eloquente o cai-
xeiro que escreve à mãe, o soldado que escreve à namora-
da, a mulher que despedaça o coração com uma pena mo-
vida pela dor. Há pessoas estúpidas, que, postas a escre-
ver, em hora de aflição, causariam inveja a um Camilo.
Há até quem não saiba escrever e seja eloquente por in-
termédio da escrita. Há analfabetos que notam cartas
extraordinárias. Há versos de cavador escritos com a
enxada. E que versos! Naturais, fluentes, cândidos, tal e
qual versos de João de Deus.
Escrever é fácil. É o eu a falar. O ler é que é difícil. São os
outros que falam. Para os compreender, é indispensável
muita ciência, muita vontade e imensa boa-fé. É preciso
ler à letra, por baixo da letra e por cima da letra para
compreender. Corre-se o risco de ler rosado onde o autor
escreve azulado. Confundem-se as cores. Baralha-se o
arco-íris.
Ler é escutar - operação difícil. Se não escutarmos de boa
mente, que é que nos sucede? Onde nos deitam rosas, ai
de nós, que sentimos o rosto picado de ouriços. É o que
sucede a quem não sabe ler.
Razão tinha o Goethe. À medida que ia envelhecendo, ia
dizendo: cada vez me convenço mais dos requisitos que a
leitura exige.
Ler bem é privilégio. Ai de quem escreve, imaginando ser
compreendido. Semeia flores e colhe víboras."

6 Comentários:

Anonymous guevara disse...

"Ai de quem escreve, imaginando ser
compreendido. Semeia flores e colhe víboras."

Cada um escreve para cada um, certo?
:D

26 fevereiro, 2006 17:30  
Blogger Eduarda disse...

Dá para pensar este belo texto...

26 fevereiro, 2006 21:09  
Blogger M em Campanhã disse...

muito curioso, se bem que para quem escreve nem seja sempre relevante como se é lido. mas para quem lê é importante ter a noção que o que se lê são só palavras, só as asas, de maior ou menor envergadura, de quem escreve. as palavras não são o outro. na blogosfera isso é paricularmente crítico.

era médico, JAC, tipo João Semana, na sua Régua natal.

26 fevereiro, 2006 22:33  
Blogger MOLOI LORASAI disse...

Vou parar é em Samta Apollonnia.

27 fevereiro, 2006 01:20  
Blogger feniana disse...

gostei muito de ler. muito mesmo

01 março, 2006 19:17  
Blogger Susana Freitas disse...

Nem sempre a escrita consegue expressar o que nos vai na alma. Contudo, ela liberta e é essa liberdade que hoje mais falta.
Também eu sinto necessidade de escrever, ainda que não seja compreendida, ainda que ninguém saiba.
Deixo-te o meu recém-criado blog: http://ascoisasquesei.blogspot.com/

16 março, 2006 19:25  

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