27 março, 2010

a luz na escrita

"O Augusto vai à taberna beber uma cerveja. Pretexto para poder falar
com as pessoas.
As mulheres lavam a roupa; apetecia-me também ir lavar roupa, mas
não encontro um pretexto para poder conversar com elas.
O estrume, como em Cavra, desce pelas ruas.
O café (a taberna) das mulheres é o tanque onde, em conjunto, lavam
a roupa.
Afinal, o pretexto não é necessário. Sento-me mais longe, numa pedra,
e um grupo de três raparigas vem ter comigo. Sem humor negro, ali,
mais em baixo, hoje, dia em que se lava a roupa, Alturas parece-me
um lugar em que se vive trabalhando duramente, mas em vilegiatura.
Isto é, casas à volta, mulheres que falam no tanque, homens que, quase
em frente, falam na loja, uma rapariga que lavou a cabeça e que é con-
vidada por outra para ir até ao Lameiro, ocupar-se das vacas. É bonita e
penteia-se sem cessar, quase ritualmente.
Meu diálogo com a mãe:
— O que lhe faz mais falta?
— O padre e Deus.
Para a filha:
— Rapariga, prende o cabelo, deixa-te de luxos.
A filha, sorrindo:
— Fale e cale-se.
— Deus e a luz. A luz dos olhos.
Uma das raparigas:
— A luz eléctrica, também."


de "Uma Data Em Cada Mão, Livro de Horas I"
Maria Gabriela Llansol

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