24 março, 2008

café portugal

um texto de Filipa Leal
(encontrado no primeiro número de uma nova revista de
distribuição gratuita, intitulada precisamente "um café")

O Que Sente O Escritor Feliz No Café Portugal

O escritor feliz nunca tinha pensado em emigrar. Mesmo
quando percebia que, apesar do seu esforço, a família e os
amigos continuavam a pensar que não há escritores felizes,
ele preferia habitar esse país de gente desconfiada, de gente
feliz. Só quem desconfia pode ser feliz, pensava, só quem
desconfia. E lembrava-se daquela frase do grande roman-
cista brasileiro que escreveu: "Eu quase que nada sei, mas
desconfio de muita coisa". Isso mesmo. Gostava de Portugal
com a sua desconfiança, com os seus portugueses.

Quando viajava, perguntavam-lhe muito por eles, pelos
portugueses de Portugal. (Portugal devia estar contente por
haver gente que era dele, como acontece no amor. Também
por isso não emigrava.) O escritor feliz costumava dizer que
os portugueses eram seres estranhos. Mas como gostava de
metáforas, acrescentava: uma espécie de aves com raízes. E
sorria.

É preciso lembrar que o escritor feliz só tinha três vícios:
escrever, amar e viajar. Viajar era aquele que planeava melhor
e com mais antecedência, por ser o único que não era grátis.
E, no entanto, tão fundamental. Não para a escrita. Funda-
mental para também ele poder desconfiar.

Na ideia do escritor feliz, viajar era uma espécie de coragem,
uma temporária emigração. Admirava muito aqueles que
conseguiam mudar de laços, de braços, mas depois punha-se
a pensar: serão felizes?

Pensando bem, o escritor feliz gostava mesmo era de regressar.
Por isso partia, para voltar a sentir Portugal com o seu cheiro:
pão, uvas, mar, esteva, canela, coentros.
O escritor feliz gostava mesmo era de voltar a sentir Portugal
com o seu cheiro a eucalipto, mas sobretudo com o seu cheiro
a café.

É que Portugal, pensava, é isso mesmo: um café, de certo
modo, habitável.

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