30 janeiro, 2008

um interruptor que congelasse para mim o iluminado sorriso da minha criança

"Há algo na tua escrita que me lembra que uma vez pensei em
ensinar ao meu filho uma língua pessoal. Isolá-lo propositada-
mente do mundo falante e mentir-lhe desde a nascença, para
que ele acreditasse exclusivamente na língua que eu lhe daria.
Que seria uma língua misericordiosa. A minha intenção era
andar com ele de mão dada e dar a tudo o que ele visse nomes
que lhe evitassem quaisquer sofrimentos. Para que ele não
pudesse de todo perceber que há guerras, que as pessoas matam,
e que este vermelho é sangue. Uma ideia um bocado velha, eu
sei, mas gostava de imaginá-lo a atravessar a vida com um
sorriso confiante e inocente, o primeiro menino iluminado.
Não preciso de te dizer como fiquei feliz quando ele começou a
falar, deves lembrar-te do milagre que é quando uma criança
começa a dar nomes às coisas. E, no entanto, sempre que ele
aprendia uma palavra nova, uma palavra que é também um
bocado "deles", de toda a gente, mesmo a primeira palavra
dele, uma primeira palavra tão bonita como "luz", senti também
uma ligeira amargura, porque pensei, sabe-se lá o que ele perde
neste momento, os infinitos tipos de claridade que ele sentiu, viu,
saboreou e cheirou, antes de os comprimir todos dentro da
pequena caixa "luz", com o "z" na ponta, como um interruptor
para a apagar. Percebes, não é?"

(de "Em Carne Viva" de David Grossman, traduzido do hebraico
por Lúcia Liba Mucznik)

3 Comentários:

Blogger isabel mendes ferreira disse...

um abraço.



de luz.

30 janeiro, 2008 17:19  
Blogger hfm disse...

Belíssimo!

30 janeiro, 2008 19:04  
Blogger un dress disse...

há uma morte eminente

em tudo o que funciona

30 janeiro, 2008 23:44  

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