01 novembro, 2005

em especial paraKnuque

Mais uma carta de Carl Israel Ruders, agora escrita a 10 de
Novembro de 1800.*

" Escrevo mais uma carta sobre os nossos espectáculos
dramáticos.
A peça que actualmente mais se vê no Teatro Nacional é
Zaire de Voltaire. Entre os actores destacam-se Orosman e
Zaire, cujos papéis não são nada fáceis; mas parece-me que o
actor que representa Nerestan não domina a expressão natural
dos sentimentos. Gritos violentos e fortes contorsões do corpo
podem impressionar o povo, como de facto o fazem aqui e em
outros lugares, porque não se vê nunca um actor representar
com grande entusiasmo sem provocar grandes salvas de palmas.
São mimos que estragam a maioria dos actores. Verdadeiros
artistas são só os que estudam a natureza dos sentimentos e a
sua expressão na vida. Só assim pode aquele que possui génio e
ao mesmo tempo talento chegar a um grande nível artístico.
Compreende-se que, através de muitas observações da natu-
reza real, o artista tem de trabalhar até chegar à beleza ideal ou
àquilo que os franceses chamam la belle nature, porque é isto o
verdadeiro objectivo da arte. Mas quando o povo ignorante por
capricho ou exemplo mostra agrado ou desagrado, e quando os
actores exercem a sua profissão como se fosse um ofício qualquer,
sem se preocuparem com a verdade da acção, mas com orgulho
recebem os vivas de jovens mal educados, que muitas vezes dão
o tom, nestes casos esta arte difícil nunca poderá ser mais do que
medíocre.
Há algum tempo atrás vi neste teatro uma nova farsa, intitu-
lada: Cair no Laço que Armou, que corresponde ao nosso ditado
"Muitos caem na armadilha que prepararam para outros". A peça
é engraçada; mas acho que, quando se trata de peças sobre cos-
tumes nacionais, a música devia ser também portuguesa. As can-
ções desta peça são de facto compostas por um português, mas
em estilo italiano. Os habitantes desta cidade que vêm das classes
menos cultivadas preferem os espectáculos nacionais aos italia-
nos porventura por compreenderem melhor. Nem a música nem
a língua são obstáculos, e os preços são mais baixos. Mas a maio-
ria dos estrangeiros e les gens de bon ton normalmente fazem
troça dos espectáculos portugueses. (...)"

(*sublinhados meus)

2 Comentários:

Blogger Fernando Moreira disse...

adorei francisco, esta carta é um mimo! Mostra o bom e o mau actor!Quase ousaria dizer que tem uma visão bastante contemporânea!Adorei! Abraço

01 novembro, 2005 22:34  
Blogger francisco carvalho disse...

É que tem mesmo!
Abraçado estou.

01 novembro, 2005 22:54  

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