08 fevereiro, 2017

"alguma coisa negra"

"Faço estas frases a partir de destroços de poemas. a partir
de cores que se tornaram negligenciáveis. a partir de dias
turvos.

Em todas as recordações as cores desbotam. ali estás clara
ou sombria, a minha linguagem não consegue dizer mais
do que isto.

Interiormente, deixas-me confinado às tuas fotografias.

As tuas cores escapam-me uma a uma. como as tuas frases.

Sestas sépia.

Um pedaço de papel branco mantém a sua claridade de
céu onde o branco ganhou um tom de cinza, tendo desli-
zado no sal. esse céu mais luminoso do que o papel.

Num certo sentido, porém, ele tinha sido mais sombrio.

O mesmo com o teu corpo. retirando toda a luz aos meus
olhares.

Mas seria correcto dizer que a minha visão está em falta?"


em "alguma coisa negra" de Jacques Roubaud